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Relato de Antonio Ribeiro de Macedo - Filho do Exator da Barreira do Itupava registra em "Memória", de 1853, a maneira como se fazia a viagem pelo Itupava.
"Em Morretes ou Porto de Cima pernoitava a família em casa de conhecidos por não haver então hotéis.
Tratava-se de arranjar condução para Curitiba, que consistia em animais, de preferência muares, com os competentes selins, sendo de banda para as senhoras e pequenos para as crianças, pois que, de sete anos para cima, tinha de ir cada um em seu cavalo. Os menores iam no colo dos pais ou de outros conhecidos.
Tais preparativos demoravam pelo menos um dia, quando não estava tudo arranjado de antemão. No dia aprazado, montavam todos em cavalos ou bestas e seguiam pela estrada do Itupava, que era então o melhor que havia, por ser calçada.
Andavam em terreno plano margeando o rio Nhumdiaquara atéo o morro Sabiocaba. Já então começava a subir, mas a maior subida começava da casa da barreira.
A estrada era toda calçada, como já disse, porém estreita, de modo que, havendo tropas ou cavaleiros, aqueles que chegavam depois tinham de esperar de um lado para deixarem os outros passar.
A estrada era tão íngreme que todos era obrigados a se apeiar, ao contrário, arriscavam-se no caso de arrebentar uma silha, a cair de costas serra abaixo. Mesmo assim, alguns mais ousados subiam a cavalo, mas com grande risco.
O lugar mais escabroso era o denominado Cadeado, onde existiam três degraus pelos quais os animais eram obrigados a subir, no que sem dúvida se viam bem embaraçados por não estarem os indivíduos da raça eqüina ou muar acostumados a semelhante ginástica.
Suando, esbaforidos, com ardente sede, como sucede aqueles que sobem morros acantilados, chegavam ao cume da serra onde todos descansavam e saciavam a sede, por haver ali uma fonte de exelente água.
Não estava porém terminada a viagem; continuava por muito tempo, subindo e descendo morros, não tão íngremes como os da serra, até chegarem ao lugar denominado Campina. Antes disso, em um alto, o viajante que nunca tinha ido a Curitiba, fica maravilhado pela beleza do Panorama. Apreciam-lhe não longe, os verdejantes campos ao lado de florestas de pinheirais, a esse tempo intactas por não ter ainda vindo o progresso, representado pelas serrarias, destruir esse tesouro que a pujante natureza do Paraná, estava guardando para construir um elemento de riqueza para a nova província.
Encantados com o que viam, continuavam a viagem, ansiosos por chegarem aquelas paragens que, comparadas com os lugares que tinham atravessado na serra, lhes parecia um Édem.
Finalmente constatavam, qual um oásis no meio do deserto, uma boa casa, a do capitão Borba, que com sua digna esposa, a bondosa Dna Joana, pai e mãe do saudoso coronel Telêmaco Borba, ali tinham sua agradável vivenda e ofereciam franca e cavalheirosa hospitalidade a todos os que os procuravam. Não é demais depois de mais de meio século, eu venha prestar esta homenagem a essas duas almas que tanto bem fizeram, constituindo-se a providência de todos os que naquele tempo viajavam pelo Itupava.
Os nossos viajantes ali ficavam até o dia seguinte, ou continuavam a viagem atravessando ainda um pouco de mato, até chegarem ao campo que tinham visto ao longe que, com intermitência de alguns capões, continuava até Curitiba, onde aqueles que não estavam acostumados a andar a cavalo chegavam extenuados.
Note-se que a viagem que acabo de descrever era daquelas que eram consideradas boas, por ser realizada com bom tempo. Se, porém, chovia, era muito diferente. Os riachos afluentes do Nhundiaquara enchiam, e não havendo ponte em nenhum deles, se tornava impossível o trânsito. Como as cabeceiras eram muito próximas, também logo baixavam.
Se a família era assaltada pelo temporal em viagem, tinha de estacionar no caminho em alguma das muitas casas, contíguas a engenhos de mate que, então, existiam ao longo da estrada, cujos proprietários nunca se negavam a proporcionar a hospitalidade reclamada, tomando como ofensa se lhe ofereciam disso pagamento. As casas a que me refiro eram somente da barreira para baixo, porque na serra propriamente dita, a não ser um morador que tinha um casebre junto ao rio Ipiranga, ninguém habitava.
Quando chovia, nos lugares em que a estrada tinha barrancos de ambos os lados, transformava-se o caminho em rio, correndo água sobre o leito. Se o viajante não tinha onde parar, caso não ficasse retido por alguns dos riachos, tinha de descer ou subir por dentro d'água, pisando nas pedras escorregadias da calçada.
Eis o que era uma viagem pela melhor estrada do Paraná no tempo da instalação da Província, de que dou testemunho pessoal, por tê-la feito com chuva e com bom tempo mais de uma vez, em companhia de meu saudoso pai, no tempo de criança."
Outros Relatos:
:: Relato do Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria.
:: Relato de Auguste de Saint`Hilaire.
:: Relato do Barão de Antonina.
:: Ordens de José Carlos Pereira de Almeida Torres.
:: Relato de Jean Baptiste Debret. (I)
:: Relato de Jean Baptiste Debret. (II)
:: Relato de Jean Baptiste Debret. (III)
:: Relato de Francisco Antonio de Oliveira.
:: Relato de Antônio Vieira dos Santos.
:: Relato de Antonio Ribeiro de Macedo.
:: Relato de Henrique de Beaurepaire Rohan.
:: Relato de Diogo Pinto de Azevedo Portugal.
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